6 de maio de 2011

“VIPs” – 'Aparências enganam'

Por Eduardo Escorel e Paola Prestes *


Visto por cerca de 560 mil espectadores nas 6 primeiras semanas de exibição, “Vips” continua em cartaz em 54 salas – carreira comercial que pode ser considerada boa se comparada à maioria dos filmes brasileiros recentes.


Mas, mesmo tendo sido lançado em 175 salas, “Vips” teve pouco mais de 117 mil espectadores no primeiro fim de semana de lançamento, com média por sala de 671 espectadores, o que indica resultado abaixo da expectativa do distribuidor.


Há dias, recebi de Paola Prestes o e-mail transcrito a seguir em que ela comenta o filme. 
Paola foi apresentada neste blog quando publicamos o relato dela sobre o Seminário Herzog.



Assunto: Dr. Douglas e VIPs
Data: Segunda-feira, 25 de Abril de 2011 - 12:23 
De: Paola Prestes


Há alguns anos aportou no Brasil um mulato alto de roupas vistosas. Atendia pelo nome de Dr. Douglas, e dizia ser médico e sueco. Trazia muita coisa envolta em bruma na bagagem, da etnia à formação acadêmica, mas nada disso parecia importar diante do radiante sorriso de superstar e currículo internacional de proezas medicinais.


Dr. Douglas tinha desenvolvido um elixir à base de ervas que curava tudo, ou quase tudo. Contava que sua amiga Sharon Stone, há anos às voltas com problemas hormonais, tinha voltado a menstruar depois de tomar seu elixir. Mas isso não era nada. O elixir do Dr. Douglas fazia muito melhor do que curar problemas de ovários temperamentais, fazia emagrecer em tempo recorde. Logo Dr. Douglas passou a aparecer nas colunas sociais abraçado a extasiadas damas da sociedade brasileira. Não me lembro se já existia a ilha de “Caras” na época, mas com certeza Dr. Douglas frequentou de ilhas a coberturas, de haras a pistas de dança de clubes privés, sempre sorrindo e com uma taça de champanhe na mão.


Não tardou e vi na “Veja São Paulo” o anúncio dos kits do Dr. Douglas: na época, um kit econômico da misteriosa bebida saia por cerca de R$ 600,00, e o kit com mais frascos ou de lux, por R$ 900,00. Perguntei-me quem seria louco o suficiente para comprar e, pior, ingerir uma coisa dessas. Acho que o número de loucos superou minhas expectativas, pois pouco tempo depois várias pessoas (entre elas, suponho, muitos membros do high society) foram parar no pronto-socorro com uma diarréia dos diabos. A Anvisa não teve tempo de reagir: diante do escândalo que se desenhava no horizonte, Dr. Douglas sumiu como apareceu, como uma miragem, ou uma bad trip de ervas não muito kosher. Na bagagem, alguns milhares de reais de gordinhos do jet set nacional. Mas sejamos justos: Dr. Douglas não mentiu inteiramente, na medida em que no final das contas, engordar, nenhuma de suas vítimas engordou, muito pelo contrário.


Não posso falar pelos pacientes do Dr. Douglas, mas eu aprendi muito com esse caso. Definitivamente, no Brasil, padecemos de uma reverência crônica diante de tudo aquilo que brilha, reluz e tilinta. Recebemos de braços abertos, e sem questionar, quem é parente próximo do dinheiro, ou a encarnação da fama e da fortuna. Se for estrangeiro, melhor ainda. Avaliamos ingenuamente as pessoas baseados em aparências, talvez vestígios da mentalidade colonial portuguesa que fazia nossos antepassados saírem para passear em liteiras carregadas por escravos, enquanto dentro de casa não havia quase móveis e comia-se gororoba. Nosso histórico deslumbramento tornou-se um traço nacional que gerou clássicos do tipo "Você sabe com quem está falando?", ou o sujeito que deve no banco, mas anda de carro importado nas alamedas dos Jardins, ou ainda o clássico hors concours que é a perua.


Tudo isso para chegar no filme “VIPs”, de Toniko Melo. O filme mostra um personagem que inventa identidades e se faz passar por milionário. Talvez um psiquiatra esclarecesse que o personagem de Wagner Moura e o Dr. Douglas são muito diferentes. Talvez, mas o fato é que, tanto num caso como no outro, sinto que o interessante não é tanto o personagem como o meio que os aceita sem questionar.  O filme mostra, e só. Não expõe a simbiose entre patifes que querem aparecer e uma sociedade que se alimenta da vontade de aparentar e ser algo que não é.


O filme é bem feito, o roteiro flui num ritmo regular, a montagem é dinâmica, como virou obrigação hoje em dia, mas... onde está o olhar crítico? Há o absurdo intrínseco à própria situação, o qual, a rigor, prescinde da intenção do diretor. O filme passa longe da reflexão que, por exemplo, Woody Allen fez no filme “Celebridades”. Não há sequer a tentativa de uma reflexão dessa natureza, mesmo se imperfeita. No lugar disso, “VIPs” flerta com o filme de ação e tem seus momentos cabeça quando aparece o pai do personagem, mais enxertado na trama como uma prótese psicanalítica do que propriamente assimilado na narrativa. Teria sido melhor ater-se ao personagem da mãe, muito bem interpretado pela Gisele Fróes, e aprofundá-lo.


Outra referência, o filme “Prenda-me se for capaz”, de Steven Spielberg, tem como foco central o perturbado personagem vivido por Leonardo Di Caprio, e isto se justifica na medida em que o personagem foi muito bem burilado, tanto no roteiro como na interpretação.


No caso de “VIPs”, o personagem de Wagner Moura não chega à metade das camadas do colega americano, talvez mais por uma questão de roteiro do que de interpretação. Isto poderia não ter sido exatamente uma falha, mas a justificativa para outro foco, direcionado ao meio em que o personagem, maravilhado, transita. Como acontece uma coisa dessas? Teríamos nós, espectadores, caído nesse conto do vigário? Abraçado um estranho só porque ele é rico aparenta fama e riqueza? Somos mesmo assim?


Saí do cinema pensando que foi perdida uma chance de levantarmos um dos véus que cobre o meio em que vivemos, ainda carente de tanta análise, indagação e contextualização histórica. Talvez seja pedir demais a um filme. Talvez. Queria pelo menos ter tido vontade de torcer pelo personagem, como fiz com o personagem do Di Caprio. Em vez disso, ganhamos mais um filme que não se tornará um clássico. Um a zero para as peruas. [Paola Prestes]


< http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-cinematograficas/geral/vips-aparencias-enganam >

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