INIGUALÁVEL -- Peter O'Toole no papel título de "Lawrence da Arábia: pela sua magnitude e perfeição, o épico de David Lean é um caso exemplar dos novos processos digitais de restauração (Foto: Everett Collection / Grupo Keystone)
NASCIDOS IMORTAIS, TORNADOS ETERNOS
As restaurações dos filmes Lawrence da Arábia, Cantando na Chuva e Tubarão são um ótimo argumento em favor da imagem digital – e também da riqueza única da película
Os detalhes são tantos e tão nítidos que tentar apreendê-los todos é atordoante: até os grãos da areia são visíveis, assim como os microscópicos fragmentos de mica brilhando entre eles; a poeira está tão entranhada no uniforme de Peter O’Toole que é possível sentir entre os dedos a maneira como ela altera a textura do tecido; quando a câmera passa pelo rosto dele, o azul líquido dos seus olhos é de uma coincidência preternatural com o azul do céu, e de um contraste feroz com os efeitos da secura e do calor em seu rosto.
E, graças ao ar cristalino do deserto, à luz que inunda tudo e à perícia monstruosa do diretor de fotografia Freddie Young, consegue-se divisar cada pormenor da paisagem para trás de O’Toole, das reentrâncias das rochas que afloram a distância até a linha incerta do horizonte.
Lawrence da Arábia, do cineasta inglês David Lean, foi sempre de tirar o fôlego, e desde 1962 vem estarrecendo espectadores. Em 1989, já havia sido objeto de uma longa restauração, a qual não apenas restituíra ao filme sua montagem original de quase quatro horas como também eliminara muito do dano acarretado ao negativo pelo tempo e pelo mau uso.
Gloriosa ressurresição em Blu-ray
Muito, porém, não é tudo – nem de longe. A obra-prima de Lean acaba de ser submetida a um novo e ainda mais minucioso processo digital de reconstituição, e agora, em seu aniversário de cinquenta anos, ressurge ainda mais gloriosa no Blu-ray que já está nas lojas.
Recomenda-se vê-la ou revê-la em televisor avantajado (de preferência de plasma, de contraste muito superior ao do LCD), com som de home theater e em sala totalmente escura. E sugere-se também que o espectador se prepare para o fato de que nunca mais outro filme lhe parecerá tão grandioso: das atuações antológicas e roteiro lapidar à majestade técnica, Lawrence é o ápice do casamento entre forma e conteúdo no cinema.
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Cantando na Chuva e Tubarão também
Graças aos novos métodos digitais de restauração, muitos outros grandes filmes estão chegando ao Blu-ray em cópias mais límpidas do que jamais o foram. Além de Lawrence, que sai pelo Sony, tem-seCantando na Chuva, o maior dos musicais, e Tubarão, o primeiro e ainda um dos melhores blockbusters, entre dezenas de outros títulos.
O que se comprova é que o alcance da restauração digital é virtualmente ilimitado. Veja-se o caso de Tubarão: Steven Spielberg teve de rodá-lo com negativo ruinzinho e penou horrores com o tubarão mecanizado e as dificuldades logísticas da filmagem em alto-mar. Ainda que o espectador de 1975 não o notasse, portanto, o filme trazia variações significativas de som, luz, cor e qualidade fotográfica.
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