Um mês depois de ter o fim de seu mandato anunciado pelos acionistas controladores da Vale, num episódio com forte influência política, o presidente da mineradora, Roger Agnelli, disse estar "feliz e tranquilo" com sua saída. Numa longa entrevista a jornalistas, a duas semanas de sua saída, justificou a encomenda bilionária de 19 navios no exterior e negou conflitos com o sucessor, Murilo Ferreira. Disse ainda entender a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre investimentos no Brasil - um dos motivos do desgaste político do executivo com o governo.À bordo do maior navio de minério do mundo, aquisição que a Vale apresentou ontem nas águas da Baía de Guanabara, Agnelli disse estar deixando a companhia em seu melhor momento. O executivo afirmou que ficará um mês parado para voltar a ter vida pessoal e "aprender o que é não ter agenda", depois de 32 anos de pesada rotina de viagens no Bradesco e na Vale.
"Eu amo a Vale, eu amo o sonho de poder estar fazendo o que a gente fez até aqui. Mas, sinceramente, hoje estou feliz do mesmo jeito", disse ele, respondendo se gostaria de ter permanecido na companhia.
A saída de Agnelli foi motivada por pressões do governo, acionista da companhia por meio de fundos de pensão de estatais. Os desgastes teriam começado com a encomenda de navios no exterior (o apresentado ontem é coreano) e se aprofundado com a decisão de demitir 1,3 mil funcionários no auge da crise financeira e de atrasar investimentos em siderurgia. Ontem, Agnelli afirmou que a Vale tem compromisso com eficiência e visões e missões diferentes das do governo, embora não considere que elas sejam conflitantes.
"Cada um tem uma visão, cada um tem uma missão. A missão da companhia é gerar resultados para ela ganhar em capacidade e investir mais. A visão, a missão do governo é diferente da de uma empresa, totalmente diferente", afirmou Agnelli. "O Lula eu até entendo. Ele disse: vamos fazer no Brasil. Nós também gostamos de fazer no Brasil."
Nacional.
O governo Lula defendia o maior nível de produção nacional possível, posição seguida na gestão Dilma Rousseff. Agnelli, porém, afirmou que os estaleiros nacionais não tinham capacidade para construir navios do porte do apresentado ontem - 400 mil toneladas - e recusaram a carta-convite da empresa.
Segundo o diretor executivo de marketing, vendas e estratégia, José Carlos Martins, os estaleiros brasileiros só teriam como começar a produção em 2015, e com um custo mínimo de US$ 236 milhões, frente aos US$ 110 milhões pagos pela embarcação. Todos os 19 navios encomendados serão entregues até 2013. Agnelli negou que o governo não tenha entendido a proposta da Vale e afirmou que a empresa "jamais ignorou a questão da indústria brasileira". "A nossa missão não é dissociada, não é contrária à do governo. Nossa missão é muito mais de longo prazo. Estamos falando de 10, 15, 20 anos. A estratégia do governo é de 2, 3 e 4 anos", afirmou.
Sobre o processo de transição, o executivo afirmou que vem tendo reuniões com seu sucessor, Murilo Ferreira, e que o convidou inclusive para discutir as bases para o orçamento de 2012. Agnelli negou que a intenção de compra da anglo-suíça Xstrata, em 2008, tenha sido motivo de atrito entre os dois.
Sobre o futuro, Agnelli não revela os planos, nem detalha a quarentena que precisará cumprir na área de mineração. Diz não saber se quer permanecer no setor e nega boatos de que poderia ir para o comando da Cemig. Mas afirma que permanecerá como membro de conselhos de administração, como da suíça ABB, da canadense Anadarko e da consultoria McKinsey. "Vai ser tudo tranquilo", garantiu.
* Sabrina Valle / RIO - O Estado de S.Paulo
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